30 de junho de 2016

Já fui uma babaca que odiava crianças (ou o que aprendi com as minhas amigas mães)

Cansei de dizer por aí que odiava crianças. Chora demais, faz birra, pergunta demais, tá sempre gritando e falando alto. O HORROR! Mãe com criança chorando no ônibus, eu era a primeira a olhar com aquela cara BEM FEIA. Controla essa criança, controla esse bebe! E daí a criança não para de chorar no supermercado, no avião, no restaurante e você começa a bufar e junto com a tensão gerada no ambiente, a mãe acabava indo embora... Ou pior, batia no filho em um ato desesperado de fazer a criança se calar e acabava piorando a situação.

Eu já fui aquela babaca que xingava muito no twitter as criança tudo no Twitter!





Eu tinha respectivamente 22 e 25 anos quando escrevi isso. E não é que eu odiava criança no sentido literal, de querer machucar/prejudicar. Eu não me considerava paciente o suficiente, sabe? Aquele tipo de pessoa que ajoelha no chão e vai brincar? Não. E toda vez que havia um mínimo de interação, sempre vinha alguém pra falar “ai, não é assim que fala com criança”.

Bom, o que mudou nos últimos cinco anos? MINHAS AMIGAS COMEÇARAM A ENGRAVIDAR. O feed de notícias quando você se aproxima dos 30 anos se resume: foto dos amigos correndo às seis da manhã de pleno domingo e bebes de todos os tipos e tamanhos.

As redes sociais tem essa fama de afastar as pessoas. “Vamos conversar entre nós, chega de senha do wi-fi” e aquela coisa toda, mas se não fossem as redes sociais (facebook principalmente) eu continuaria a mesma babaca de cinco anos atrás. Eu acompanhei a transformação de várias amigas, colegas e conhecidas a se tornarem mães. Calcular aquelas semanas todas, útero infantil, parto de risco, produto pra passar na pele, as dificuldades da gravidez, o nascimento. Um negócio chamado PEURPÉRIO que eu NUNCA TINHA OUVIDO FALAR EM TODA MINHA VIDA e é algo SUPERIMPORTANTE.

Tem um monte de coisas que são básicas e que aparentemente ninguém que tem um filho sabe. Aprendi que você precisa perguntar pra mãe antes de oferecer um alimento pra criança, aprendi que às vezes tudo o que uma mãe de primeira viagem precisa é que alguém vá lá e lave a louça dela. Aprendi a ser muito mais tolerável, que amamentar dói. Cada um tem um conselho, mas cabe aos pais a educar melhor os seus filhos. Mas tudo bem se você vê a criança disparando a descarga da sua casa e chamar atenção, explicando o porquê daquilo ser errado. Aprendi que tudo bem falar como uma criança de igual para igual (como eu costumo fazer), porque criança não é burra. Não preciso ser infantil e isso não está errado, tá tudo bem.

E como esse negócio de maternagem (tô usando até termos das mãe, veja só você) é romantizado pra caramba e todas essas minhas amigas ajudaram a desconstruir essa ideia que eu tinha. Como é difícil se socializar com uma criança. E como eu era babaca de olhar feio quando uma criança chorava no ônibus. As nossas crianças são oprimidas constantemente! Ontem eu acordei com um post de um marmanjo pedindo para não levar as crianças para assistir “Procurando Dory” porque ele estava esperando há dez anos por isso, e as crianças iriam arruinar a experiência dele por causa do barulho.  



Agora, pensa comigo. PROCURANDODORY é um filme infantil. E essa criança que não é bem-vinda de restaurantes até praças de alimentação, festas e churrascadas, em shoppings e exposições de arte, em salão de beleza a SPAs, agora as crianças vão tem que esperar o DVD pra poder assistir o filme. A mãe que já tem a sua vida social absurdamente reduzida por causa do seu filho não vai poder levar sua cria pro cinema porque criança faz muito barulho. Que mundo é esse?

Tenho um filho e só posso socializar com ele quando ele não quer mais socializar comigo (adolescência), é isso?  

Vamos colocar a mão na consciência! Mães, pais, avós: compartilhem conosco como viver com uma criança. A grande maioria não faz ideia ou tem uma visão romantizada. Precisamos saber, precisamos ouvir como realmente é.

Quando estava na faculdade, eu estudava com uma mulher chamada Ana Paula, Na época ela tinha um filho pequeno de uns 5 anos. De vez em quando ela trazia a criança pra sala de aula. Eu achava um absurdo. Todo mundo achava, aliás. Onde já se viu? Lugar de criança não é na faculdade. Acontece que a Ana Paula não tinha sempre com quem deixar o filho. Não tinha grana pra babá, a creche estava de férias e um monte de empecilhos que a gente só conhece quando vira mãe. Mais tarde, ela ficou grávida e passou a levar o bebê de colo pras aulas. Só quando eu vi a Ana Paula com o bebê no braço, a mala de coisas, os livros da faculdade e o outro filho grudado na perna dela, eu percebi como era difícil ela estar ali na aula e, mesmo assim, ela se fazia presente. E defendia seu espaço e lutava para não ser invisível naquele ambiente universitário. Quer dizer, precisou a mãe ficar visivelmente sobrecarregada para eu começar a entender o perrengue que ela passava. Assistir as aulas era a melhor parte, como Ana Paula fazia pra chegar até a faculdade em horário de pico? Quão babaca eu fui até aquele momento? Pois é.

Por isso que é importante essa troca de informações. E importante os pais reclamarem de ambientes que oprimem as crianças e que nós precisamos estar abertos a esse convívio. Não é todo mundo que vai virar mãe/pai, mas todos nós já fomos criança. As mães são invisíveis mesmo, a gente só ousa lembrar quando a criança chora e, mesmo assim, tem gente que prefere fechar os olhos e não dar o lugar no ônibus ou fazer cara feia, como eu costumava a fazer.

Não vou negar, choro de criança incomoda. Mas hoje eu penso na barra que aquela mãe tá passando, o filho pode estar doente ou é birra mesmo e não tem muito que fazer. Às vezes vez eu sorrio pra criança, tem vez que me levanto educadamente e simplesmente pego o próximo trem.

Não seja o babaca que acha que criança tem que ficar dentro de casa e sem emitir som. Ninguém tá pedindo pra você brincar com todos os bebês que aparecerem no raio de 30 km. Questão de empatia. Pegue o próximo trem, vá a uma sessão mais tarde e respire fundo. Não inviabilize. Isso é o mínimo que podemos fazer. Exercite a gentileza


15 comentários:

Monix disse...

Empatia e gentileza, qualidades raras de se ver. Achei bonito seu processo de transformação. Beijos de uma mãe que se transforma todos os dias...

Monix disse...

Empatia e gentileza, qualidades raras de se ver. Achei bonito seu processo de transformação. Beijos de uma mãe que se transforma todos os dias...

Laura Souza disse...

Parabéns.Você se permitiu crescer e ver muito além dos conceitos passados.Tem gente que nunca tenta. Sabe por que? É mais fácil achar que aquilo que não vivemos não devemos ver,pior não devemos nem empatizar. Sei que parece totalmente fora do assunto...mas eu sei que você tá assistindo GOT. Lembra a conversa do Alto Pardal sobre por que sentimos nojo das pessoas desvalidas? Serve para criança porque fomos e por que somos socialmente pressionados a um dia termos a responsabilidade por uma. Sobre as mães a mesma coisa. Ser mãe ou não é uma escolha. Mas o que eu vejo é mulher ridicularizando a outra por amamentar, pelo problema de comportamento do filho,por não seguir o modelo mãe de coisinha fofa, cabelo lindo e babá (quantas mulheres podem se encaixar nisso?). Eu sou professora cuidava de 23 crianças de 2 a 3 anos... E via o quanto os próprios pais começaram a rejeitar as manifestações dos filhos... A Mafalda do filme é linda...mas criança não é assim. É alto e baixo de alguém conhecendo tudo ao mesmo tempo. Sabe birra? É chato, mas se uma criança nunca birrar jamais será capaz de se impor sobre nada. Parece exagero né? Mas não é. Nossa cabecinha aprende tentativa e erro.Deu certo pode. Teve consequências desagradáveis, não pode. Vai tateando no escuro. Desculpa o textão.

Cheshire cat disse...

Eu também já fui dessas e também mudei quando minhas amigas viraram mães. Outro dia estava com uma amiga em um concerto e um bebê começou a chorar. Uma mulher na platéia simplesmente berrou "dá pra tirar esse bebê daqui?" Fiquei chocada com a falta de empatia. Talvez um concerto não seja o melhor lugar para se estar com um bebê, mas e se o pai da criança estivesse lá no palco tocando? Ou o tio, ou qualquer pessoa muito querida da mãe? Povo acha que virou mãe não pode mais sair de casa.

Anônimo disse...

texto bem bobo. passou da fase 1 da inocência pra fase 2 da bobice. não vivemos em uma sociedade childfriendly e isso não é culpa individual de quem não aguenta criança mimada chorando. é culpa da nossa falta de comunidade. vivemos uma crise de famílias e uma crise de comunidades. ser mãe/pai é uma merda e a culpa não é de quem não quis ser mãe/pai. a culpa é de quem escolheu ter filho mesmo sem ter condições para tê-lo. e não estou falando de condições financeiras. estou falando de condições de viver em uma cominidade que suporte aquela sua escolha e compartilhe a decisão com vc. ninguém que vive apartado de uma comunidade com a qual seja possível comungar interesses e valores deveria ter filhos. simples assim. e se vc teve filhos mesmo sem ter esse respaldo, não queira compartilhar essa responsabilidade com outros que abdicaram de ter justamente porque viram que não era possível.

Cami Rocha disse...

A sua falta de empatia e de outras pessoas como você que tornam os ambientes ruins e segregadores. A proposta é mudar isso é fazer uma comunidade melhor.

Anônimo disse...

Em primeiro lugar criança não chora.... Grita... Berra... Vamos corrigir esse verbo... Em segundo lugar... As mulheres não são como coelhas... Têm o livre arbítrio e o dom de fazer escolhas... So engravidam se desejarem... Não são obrigadas a nada.. Essa mãe do texto... Não me parece digna de comparecimento... Se ela tem a pretensão de"estudar" e sabe o aperreio que eh... Já tendo um filho... Ela engravidou pela segunda vez porque quis... Será que não dava nem para esperar se formar? Rs. então tem mais é que assumir as consequências de suas escolhas.

Laura Souza disse...

Sabe o que é mais ridículo? A pessoa postar como anônimo pois sabe que está errada. Uma mulher com filho pequeno tem muito direito a educação sim. Tem direito a procurar conhecimento e profissionalização. E tem o direito de ter outro filho e continuar o curso.Aliás tem o direito de se formar e ensinar aos filhos que educação é muito importante. Criança chora, grita.Sabe por que? Por que é a maneira de se comunicar. Ela é pequena, está com a personalidade e sistemas neurológicos em formação. Você anônimo está com o seu em pleno uso e é incapaz de ter atitudes empáticas. Você é mais inapto emocionalmente do que eles agora.Tendo aprendido tanto sobre seu corpo e suas emoções não aprendeu a se colocar no lugar do outro. Cresça.Veja, a Camila cresceu, amadureceu e percebeu que pode incomodar,mas a criança e a mãe estão no direito delas. Sinto muitissimo se sua mãe se enclausurou até sua maioridade depois que você nasceu, mas a sociedade atual não se baseia nas convenções nas quais você parece acreditar vigentes.

Anônimo disse...

Direito tem.... Não tem eh a menor condição... Kkkk

Anônimo disse...

E tem mais... As pessoas que estão lá ... Tem o direito de estudar e não tem obrigação nenhuma de ouvir gritos.... Ou ataques de histeria... Kkkk

Anônimo disse...
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Cheshire cat disse...

"Só engravida se desejar" anônimo, conta pra gente em que mundo você vive porque no nosso não é.

Anônimo disse...

Vc já ouviu falar em planejamento familiar? Ou em métodos contraceptivos? Vc.. Que vive em outro mundo... O nosso é que não é... Kkk

Triptofano disse...

Das saudades que tinha, uma delaz era de ler teu blog. O tempo passa e sempre que me lembro dele gosto de vir aqui e dar uma olhadinha. Acho que nunca comentei com nenhum outro usuário meu. Mas esze texto tá formidável - tal como os demais.

Sabe Camila, passei e passo pela mesma desconstrução de conceitos que você. Em mim tem sido dificil, porque a gente tem que dar uma parte para o outro. E essa parte é a capacidade de se colocar no lugar do outro. Não me refiro apenas à criança, mas em especial as mães. Poraue sobre elas recaem esses olhares que nós damos. Sobre elas recaem todos os xingamentos que imaginamos, aoenas em um único olhar.
Criança stressa, cansa, deixa a mãe exausta. Isso com qlqr planejamento. A palavra da vez é empatia!!!! Super importante e sempre em falta no nosso agir!


Bjs camis! Saudades das suas unhas verdes palmeiras!

Triptofano disse...
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